quarta-feira, 28 de abril de 2010

TEORIAS CRÍTICO-REPRODUTIVISTAS

TEORIAS CRÍTICO-REPRODUTIVISTAS


Odilon Manske

21/02/2008


RESUMO

As teorias crítico-reprodutivistas surgem enquanto críticas pautadas pelo marxismo ao modelo de educação nas sociedades capitalistas, porém são aplicáveis também ao modelo educacional do socialismo real. Na sociedade atual estas teorias perdem força, uma vez que desconsideram o acumulo histórico de valores e virtudes atemporais adquiridos pela escola, que transcendem a modelos econômicos e políticos, portanto não é possível a compreensão do modelo de educação na sua totalidade com base nestas teorias.

Palavras-chave: Determinantes Sociais; Escola; Inclusão Social.


1 INTRODUÇÃO

As sociedades humanas no decorrer da história, tem-se utilizado da educação enquanto ferramenta indispensável para transmitir conhecimentos, valores, hábitos enfim, uma totalidade de práxis social necessária para se reproduzir e continuar existindo.

Com o surgimento das sociedades divididas em classes sociais antagônicas, esse processo ganhou uma nova dinâmica, ou seja as necessidades das classes dominantes que exerciam o poder não consistia apenas em transmitir conhecimentos adquiridos para se reproduzir, mas fundamentalmente para se perpetuar no poder. Assim, temos o advento de uma escola que através da educação visava exclusivamente atender os interesses dos que detinham o poder em detrimento dos dominados.

Com a revolução industrial e burguesa, que varreu o feudalismo da Europa vimos o surgimento do capitalismo que dividia a sociedade fundamentalmente em duas classes sociais, ou seja a burguesia detentora do capital e o proletariado que dispunha apenas de sua força de trabalho.

Com a expansão do capitalismo e a necessidade inerente por recursos humanos especializados (engenheiros, técnicos, pessoal burocrático, etc.), a escola começa a desempenhar um papel mais amplo, porém limitada somente aos interesses do capital, que além de formar mão-de-obra especializada reproduz também a ideologia deste sistema. Daí o papel da determinação social da educação e o seu aspecto excludente e marginalizante. Provavelmente é aí que encontramos as raízes que embasaram as teorias crítico-reprodutivistas.

E na atualidade, podemos afirmar que a educação reproduz o sistema social? Ela é passível de mudanças? As teorias crítico-reprodutivistas são aplicáveis na sua totalidade para entender o modelo atual de educação? A partir da análise das determinantes sociais podemos elaborar uma proposta aplicável ao atual modelo de educação? Apesar das implicâncias teóricas é disto que trataremos neste trabalho.


2 SISTEMAS SOCIAIS E EDUCAÇÃO

Ao adotarmos uma postura crítica em relação ao papel da escola em determinada sociedade, percebemos que no decorrer da história das sociedades humanas fundadas sob os mais diversos modelos econômicos, percebemos que o modelo de escola sempre foi reflexo e o instrumento de reprodução deste ou daquele sistema específico. Tenha ele sido escravagista, feudal, capitalista, socialista, de cunho democrático, fascista ou ditatorial.

Se as teorias crítico-reprodutivistas são aplicáveis ao modelo capitalista, assim também o são ao modelo do socialismo real vivenciado no leste europeu até no final do século XX, porém com uma diferença enorme. Se por um lado o modelo de educação destes países reproduzia um ideal de sociedade concebido pelos teóricos do partido no poder, jamais posto em prática e distante da realidade, por outro lado reproduzia também o caráter ditatorial da verdade única, obediente a um rígido sistema de controle, inerente a este sistema de ditadura de um partido. Impossibilitando desta forma que teorias crítico-reprodutivistas ou qualquer crítica ao sistema de educação viesse a tona. Os teóricos do partido no poder se utilizavam sim das teorias crítico-reprodutivistas, mas para criticar o modelo ocidental, faltava-lhes olhar para o próprio umbigo, mas a verdade absoluta da qual se achavam donos lhes impedia de perceber que o seu modelo de educação nada mais era que a extensão do tentáculo do Estado na escola para se reproduzir e perpetuar.

Se na nossa sociedade nos utilizamos de teorias marxistas para criticar o modelo de educação, não raramente buscando nelas inclusive modelos de uma sociedade socialista, sob a alcunha aparentemente inocente de transformações sociais ou sociedade igualitária, podemos estar trilhando um caminho equivocado, cujo resultado desastroso já foi comprovado pela história.

Portanto, entendemos que o marxismo pode nos fornecer as ferramentas teóricas para o entendimento e discernimento da história das sociedades humanas e os seus reflexos nos respectivos modelos de educação sob uma perspectiva crítica, porém sem incorrer na tentação de buscar o modelo social proposto por ele.

A escola pode e deve a partir da crítica das teorias crítico-reprodutivistas, produzir transformações sociais importantes, mas aqui não entendida como revolução e sim transformações que visem o desenvolvimento de todas as capacidades e habilidades do indivíduo para promover a verdadeira inclusão social, levando em conta sua diversidade e singularidade, salvaguardando princípios de liberdade, solidariedade e humanidade.


3 A EDUCAÇÃO COMO FERRAMENTA DE TRANSFORMAÇÃO SOCIAL

As teorias crítico-reprodutivistas estão pautadas na afirmação de que a educação sempre reproduz o sistema social no qual esta inserida, reproduzindo conseqüentemente as desigualdades sociais, incorrendo de certa forma num determinismo de classe. No entanto os crítico-reprodutivistas não apresentam uma proposta pedagógica, estão limitados às análises do determinismo social, enquanto crítica ao modelo de educação.

Neste contexto, acreditamos que podemos transcender a partir desta teoria, pois se de um lado a escola reproduz as injustiças, por outro ela é passível de provocar mudanças. Prerrogativa alicerçada na afirmação que ao longo da história da educação existiu certa continuidade na transmissão de valores éticos e humanistas que transcendem os modelos sociais e, ainda de acordo com Saviani (1991, p. 21), “o trabalho educativo é o ato de produzir direta e intencionalmente, em cada indivíduo singular, a humanidade que é produzida histórica e coletivamente pelo conjunto de homens”.

Portanto, se a grosso modo a escola reproduz a sociedade e as injustiças sociais, por outro lado ela reproduz também tendências humanistas acumuladas ao longo da história da humanidade que devem ser priorizadas e aprimoradas visando a transformação da realidade no sentido de uma sociedade mais justa, que resgate sobretudo o sentido da vida, da solidariedade, dos princípios éticos e de justiça social. Pois na medida em que o homem apreende o mundo ele é humanizado. Desta forma, as teorias crítico-reprodutivistas não são aplicáveis para entender o processo de educação na sua totalidade.

Uma atividade econômica local ou regional pode determinar o tipo de educação a ser desenvolvida, inclusive influenciar definitivamente sobre os cursos profissionalizantes ou superiores oferecidos. Isto pode ser visto como condicionante social, mas longe de ser uma reprodução de injustiça social. Parece plausível que se trata de uma crítica infantil à economia de mercado.

É esta transformação lenta e silenciosa, promovida pela educação e a economia de mercado, pautada por relações nem sempre livres de contradições que os marxistas de plantão não compreendem.

O nosso grande problema não é a economia de mercado, mas a falta dela. É através dela, pelos empregos gerados, que se promove a inclusão social. Pois com a melhoria dos salários os jovens podem investir mais na sua formação e os pais podem garantir uma melhoria na qualidade de vida para si e para os seus filhos. Os trabalhadores atuais já não vendem simplesmente sua força de trabalho, mas vendem conhecimento adquirido através dos estabelecimentos de ensino.

Inclusão social significa antes de tudo, resgatar o significado ético do trabalho. Em qualquer sociedade, seja ela americana, alemã ou japonesa determinados trabalhos considerados degradantes por nossa sociedade, como coleta de lixo, construção civil, limpeza pública, serviços gerais entre outros, lá são desenvolvidos com a maior dignidade.

Nestes e outros países existe uma valorização muito grande pelo trabalho manual e uma compensação financeira em termos de salário adequada a sua realidade, obviamente muito diferente da nossa sociedade.

Portanto, faz-se necessário o resgate ético do trabalho que poderá ser forjado pela educação através da prerrogativa “saber fazer”.

Ainda na possibilidade de perceber a educação enquanto ferramenta na construção de uma sociedade mais justa é necessário resgatar o caráter científico da pedagogia tradicional. Ainda de acordo com Saviani (1991, p. 103), “a escola é uma instituição cujo papel consiste na socialização do saber elaborado, e não do saber espontâneo, do saber sistematizado e não do saber fragmentado, da cultura erudita e não da cultura popular”.

O que entendemos por transformação social ou por uma sociedade mais justa? Na nossa compreensão é um processo em cujo desenvolvimento são conquistadas as oportunidades iguais para todos, com o propósito do pleno desenvolvimento do ser humano, capacitando-o e disponibilizando as ferramentas necessárias para que ocupe o seu lugar na sociedade enquanto indivíduo crítico, solidário e humano para o pleno exercício da cidadania.

Este processo não ocorre de forma espontânea e livre de embates, pois reconhecemos que existem muitos interesses em jogo, somente a sociedade organizada e as instituições, incluindo fundamentalmente a escola, podem interferir decisivamente no desenvolvimento deste processo. Portanto vimos a escola não somente como parteira do saber, mas como a grande impulsionadora da inclusão social.


4 CONCLUSÃO

Concluímos que as teorias crítico-reprodutivistas desempenharam papel importante para o entendimento crítico das mais variadas sociedades humanas e seus respectivos modelos de educação.

Porém hoje, devido às complexidades das mudanças sociais operadas pela revolução técnico-científica estas teorias perderam credibilidade. Primeiro por desconsiderar o acumulo histórico de valores e virtudes adquiridos pela sociedade que consideramos atemporais, os quais transcendem a qualquer modelo político e econômico. Segundo porque se de um lado a educação é determinada pelas condicionantes sociais, não por isso ela reproduz as injustiças sociais, ao contrário, ela pode funcionar como atenuante destes problemas, nem sempre as condicionantes sociais podem ser vistas negativamente para a educação. E terceiro porque esta teoria não apresenta uma proposta pedagógica alternativa.

Finalmente para transcender a partir desta teoria e elaborar uma nova concepção de educação é necessário abstrair das tendências contemporâneas de educação. Pois assim como as teorias crítico-reprodutivistas tem a sua contribuição para entender o modelo de educação, certamente as outras concepções de educação terão muito a nos dizer.


5 REFERÊNCIAS

SAVIANI, D. Pedagogia histórico-crítica: Primeiras aproximações. 2. ed. São Paulo: Cortez/Autores Associados, 1991.

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